Como o Investimento de Impacto Potencia Soluções para o SNS
Artigo escrito por Francisco Palmares, Gestor de Investimento de Impacto na Fundação Ageas. 22.10.2025
A Saúde é uma das áreas temáticas prioritárias da Fundação Ageas, com um dos focos sendo a democratização do acesso aos serviços de saúde. Para concretizar este e outros objetivos foi criado o eixo de Investimento de Impacto, que permite canalizar mais recursos — técnicos e financeiros — para projetos com potencial de escala. Um dos primeiros investimentos realizados foi na Dioscope, uma solução que promove a educação médica e potencia a capacidade dos médicos, com particular incidência no Serviço Nacional de Saúde.
O problema e a solução
Em Portugal, somos constantemente informados sobre desafios no acesso à saúde. Encerramento de urgências, greves, falta de médicos de família ou aumentos de custos com o SNS são temas frequentes nos jornais. Não é fácil identificar áreas onde um investimento pode ter um efeito catalisador, mas parece evidente que os profissionais de saúde têm um papel fundamental na qualidade global do sistema de saúde.
Estudos sobre saúde mental de profissionais de saúde apontam para sintomas graves de burnout em 25% dos médicos em internato e para sintomas de depressão grave em 30% dos enfermeiros.[1] [2] Os profissionais de saúde estão claramente sobrecarregados e este problema é particularmente alarmante quando o confrontamos com a procura crescente por cuidados de saúde, sem a devida resposta. Por exemplo, 15% dos utentes não têm acesso a um médico de família e todos os anos se registam milhares de idas desnecessárias às urgências.[3][4] Ora, se não podemos continuar a exigir esforços sobre-humanos dos profissionais de saúde, temos a obrigação de encontrar formas de potenciar a sua capacidade.
A análise
Durante o processo de análise, em 2022, durante o qual consultámos mais de uma dúzia de especialistas, concluímos que a Dioscope respondia aos principais critérios que a Fundação procura num potencial investimento de impacto:
À data, a Dioscope já oferecia o programa Perguntas de Especialidade que prepara médicos para a Prova Nacional de Acesso, e foi com base nessa experiência que desenvolveu um sistema de apoio à decisão médica para apoiar profissionais de saúde a resolver dúvidas clínicas. A solução focava-se particularmente nos jovens médicos em internato, onde as dúvidas clínicas podiam ter mais consequências negativas e contribuir para uma sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde.
A contribuição para uma melhoria de acuidade no diagnóstico seria decisiva tanto para a redução de filas de espera, como para o bem-estar dos próprios médicos.
É importante realçar que a operação da Dioscope já estava consolidada. Tinham mais de dois mil médicos a utilizar a plataforma e parcerias com 4 hospitais, para além de registos de manifestação de interesse de outros 76 hospitais ou unidades de saúde. Precisavam apenas dos recursos adequados para ganhar escala.
O investimento
O investimento de impacto na Dioscope foi feito, aprovado em 2022, através de um Acordo de Partilha de Receitas, um instrumento financeiro pouco utilizado pelas fundações portuguesas, mas relativamente comum noutras indústrias.
Investimos 158 mil euros, para a startup reforçar a sua equipa e adaptar a plataforma de apoio à decisão médica a cada hospital parceiro.
As cláusulas do Acordo de Partilha de Receita que juntou a Dioscope à Fundação Ageas foram desenhadas para potenciar o sucesso da solução. Veja-se:
Desafios
O evidente sucesso da Dioscope não passou sem alguns desafios e a Fundação Ageas mostrou saber, enquanto investidora, corresponder com flexibilidade a um pivot inesperado, mas necessário, que forçou a startup a adaptar a solução (não entrando, porém, em conflito com a missão da Dioscope de promover a educação médica).
Este pivot foi motivado pela restruturação do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com a criação das Unidades Locais de Saúde (ULS). Inicialmente, o foco da Dioscope consistia na alteração dos protocolos em cada hospital para introdução do sistema desenvolvido pela startup, mas a restruturação em ULS reduziu a disponibilidade dos hospitais para implementar estes protocolos. Assim, a Dioscope passou a focar-se na vertente de formação, transformando a solução que oferecia para o que o SNS valorizava, uma plataforma de cursos sobre diferentes especialidades, mantendo a componente do sistema de apoio à decisão.
Com esta mudança, a abordagem comercial da Dioscope prosperou e todos os indicadores refletiram o crescimento da organização. No início de 2025, a plataforma contava com mais de 17 mil médicos inscritos, e quase 300 mil horas de formação por ano. Este crescimento tem sido reconhecido pelo ecossistema (Deloitte Technology Fast 50) e traduziu-se numa receita recorde para a Dioscope, fazendo jus à visão da Fundação sobre investimento de impacto – a Fundação beneficia de parte do sucesso e assume todo o risco, criando espaço para as organizações escalarem o seu impacto de forma sustentável.
O reembolso
Foi neste contexto que, em 2025, a Dioscope fez o primeiro reembolso à Fundação Ageas, no valor de 116 mil euros, quase três quartos do investimento inicial. O que me leva a falar de outras condições relevantes do Acordo de Partilha de Receita feito com a Dioscope:
Esta última cláusula é fundamental para transformar o Acordo num instrumento de investimento de impacto porque define como é que alinhamos os incentivos financeiros em torno do impacto, ou melhor, como é que o impacto passa a ser uma variável crucial para as decisões de negócio da organização.
O impacto
Em 2025, já foram publicados dois artigos científicos sobre as mais valias da Dioscope na referenciação para consulta de especialidade em hidradenite supurativa, na Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, e na realização correta de testes genéticos BRCA, na Cureus.
O primeiro estudo validou o impacto de um curso de educação médica customizado no diagnóstico de hidradenite supurativa, com o grupo de intervenção, composto por 38 médicos, a demonstrar um conhecimento sobre a doença superior ao grupo de controlo (131 médicos), um resultado com significância estatística apesar da amostra reduzida.
Já o segundo estudo demonstrou que a implementação de um protocolo Dioscope permitiu aumentar a testagem BRCA – BRCA1 e BRCA2 são genes relacionados com o risco de desenvolver diferentes tipos de cancro. Considerando os três centros onde os protocolos foram implementados (ULS Lisboa Ocidental, ULS Amadora Sintra e ULS Loures Odivelas), a testagem passou de uma média de 14 testes por mês para quase 30 testes por mês, contribuindo para um diagnóstico precoce e oportunidades de tratamento personalizado para dezenas de pacientes.
Com a Dioscope a contribuir para melhores oportunidades de formação e para mais acuidade no diagnóstico, o sistema de saúde em Portugal e os seus utentes são os principais beneficiários. E como o impacto do projeto tem sido sinónimo de sucesso financeiro, os reembolsos à Fundação Ageas vão permitir que esta continue a apoiar projetos transformadores na área da saúde, do envelhecimento e da exclusão social de pessoas com deficiência.