Confiar: a mais antiga forma de capital
Artigo escrito por Pedro Cortez, Gestor de Investimento de Impacto na Fundação Ageas. 22.12.2025
O que aprendemos ao investir em relações
A Impact Week, organizada anualmente desde 2004 pela Impact Europe, é hoje o principal encontro europeu dedicado ao investimento de impacto e como tal, a Fundação Ageas não poderia deixar de estar presente. Apesar do nome sugerir uma semana inteira (possivelmente pela densidade de conhecimento que ali circula), em 2025 o evento decorreu ao longo de dois dias, reunindo investidores, empreendedores e organizações comprometidas em acelerar soluções sustentáveis e promover mudanças sistémicas. O lema deste ano era claro: when it gets darker, we get brighter! (quando tudo se torna mais escuro, nós brilhamos mais!).
Foi precisamente sob este lema que tive a oportunidade de absorver uma enorme quantidade e qualidade de informação ao longo das sessões. Um dos maiores desafios durante a Impact Week é escolher a sessão certa entre tantas que ocorrem em simultâneo. Destaco algumas das que tive a oportunidade de acompanhar: desde exemplos de políticas públicas, como os fundos solidários 90/10 utilizados em França para alavancar fundos de pensões em investimentos de impacto; passando por metodologias para conduzir processos de medição de impacto orientados para mudanças sistémicas (em vez de avaliar entidades isoladamente); até reflexões sobre como Portugal pode reorientar a sua política de “golden visa” para promover investimentos em habitação social.Este ano coube-me assumir um desafio que já se tornou quase uma tradição na nossa equipa: criar e desenhar a candidatura da Fundação Ageas para uma sessão no palco da Impact Week. Com o peso — e o privilégio — de garantir que esta seria a terceira sessão consecutiva da Fundação Ageas selecionada pela organização, queria criar algo que fizesse justiça ao nosso trabalho em Investimento de Impacto e que, ao mesmo tempo, acrescentasse valor a um palco que reúne o melhor do setor na Europa. Inspirado pelo próprio lema… fez-se luz.
Numa altura em que desenhamos e redesenhamos novos instrumentos financeiros e formatos de capital, há um tipo de capital que continua surpreendentemente esquecido: confiança.
Porquê confiança?
O setor do impacto evoluiu muito rápido: mais rigor nos dados, mais sofisticação financeira, mais accountability. Mas esta evolução trouxe um paradoxo: quanto mais olhamos para números, menos falamos de relações.
Ao longo dos últimos anos, a Fundação Ageas tem verificado que a confiança não se limita ao relacionamento interpessoal; é um capital intangível que potencia a escalabilidade dos projetos no terreno e que:
Abordar a confiança sem dar voz a quem está no terreno seria contraditório. Por isso, convidámos a Pedalar sem Idade Portugal para trazer a perspetiva de uma entidade do nosso portfolio cuja parceria atravessa anos e diferentes dimensões de apoio: do voluntariado a donativos, passando por capacitação, até ao mais recente trabalho conjunto em investimento de impacto.
A Impact Europe confiou na nossa proposta e ainda nos juntou dois parceiros de destaque, com experiência consolidada em financiamento de impacto: a ING Netherlands Foundation, referência europeia em grant-making, e a Resonance, pioneira em investimentos comunitários para habitação acessível.
Damos um salto de quatro meses e estamos em Malmö, na Suécia
Chegámos a Malmö, cidade reconhecida pela inovação social e sustentabilidade urbana, para dois dias de debates, aprendizagens e encontros que reforçaram a importância de alianças entre investidores, empreendedores sociais e decisores públicos. No plenário de abertura, pediram-nos que deixássemos de lado a “escuridão” (conflitos geopolíticos, encerramento da USAID, entre outros) e nos focássemos em como iluminar o caminho das soluções.
E foi exatamente isso que fizemos com a nossa sessão: “Trust as Capital: when community-led funding sparks sustainable growth” (“Confiança enquanto Capital: quando o financiamento de comunidade impulsiona crescimento sustentável”).
Quinze minutos antes do início, as portas da Spark Room abriram. Poucas pessoas, muitos ainda a terminar o almoço. Escrevi num papel: “Spark room now. TRUST me” (“Sala Spark agora. Confiem em mim”). Dei uma volta por todo o espaço do evento a mostrar este papel: alguns olhares constrangidos, muitos curiosos. Quando voltei, a sala estava cheia. Houve quem tivesse de ficar de pé.
O debate, moderado pelo meu colega Francisco Palmares, começou:
ING Netherlands Foundation — “Sit with them, not opposite to them” (sentem-se com eles, não em oposição a eles).
Nicole van de Houeve abriu com uma frase tão simples quanto poderosa: aquilo que, enquanto financiadores, tantas vezes nos esquecemos de fazer. Na sua abordagem pragmática — financiar organizações e não apenas projetos — a confiança não é opcional: é princípio orientador. Acreditam que são as próprias organizações que sabem o que é necessário e quanto custa realmente. Nicole destacou ainda o trabalho que fazem para desafiar as organizações a pensarem num modelo de negócio: não há impacto de longo prazo sem viabilidade financeira que nos mantenha “vivos”.
Resonance UK — A confiança como arquitetura invisível de investimentos catalíticos.
Leila Sharland mostrou como a confiança funciona como ponte entre mundos que raramente falam a mesma língua: comunidades, investidores e organizações sociais. Explicou que muitas das inovações financeiras que hoje admiramos só foram possíveis porque, num momento inicial, alguém decidiu confiar antes de existir evidência suficiente. A mensagem central foi marcante: a confiança não substitui o rigor — antecede-o.
Pedalar Sem Idade Portugal — As associações precisam de capital paciente e confiança.
A intervenção de Leonor Carmo Pedro podia ter parecido ensaiada (não foi, prometo).
Partilhou que muitas organizações da economia social em Portugal vivem numa dependência crónica de subsídios e que a proposta de capital paciente apresentada pela Fundação Ageas em 2022 parecia, na altura, quase irrealista. Três anos depois, a Pedalar Sem Idade Portugal passou de 4 para 12 capítulos locais, sustentada por um plano de sustentabilidade financeira de longo prazo — “graças a um acompanhamento contínuo e próximo da Fundação Ageas”.
Fundação Ageas – Investimento de Impacto como motor de desenvolvimento da economia social em Portugal.
João Machado começou por apresentar a abordagem diferenciadora da Fundação Ageas, que combina filantropia estratégica com novos instrumentos financeiros dirigidos a associações e startups. Desde 2021, com 12 investimentos de impacto na carteira, destacou como a Fundação tem fortalecido organizações como a Pedalar sem Idade Portugal, que tinha acabado de “fazer um testemunho ao valor da Fundação Ageas”.
O papel da Fundação Ageas: confiança para escalar impacto
Ao liderar esta sessão, a Fundação Ageas posicionou-se não apenas como investidora ou parceira, mas como facilitadora de ecossistemas.
O desenho da sessão refletiu a visão que temos vindo a aplicar:
Porque é que esta sessão marcou a Impact Week
“As long as there’s light, we’ve got a chance” (enquanto existir luz, temos uma oportunidade) — foi com esta frase que terminou o encontro dos maiores atores da filantropia europeia. Num evento repleto de apresentações técnicas, frameworks e metodologias, a sessão “Trust as Capital” destacou-se pela humanidade, profundidade e honestidade.
O trabalho da Fundação Ageas mostra que, mesmo em tempos turbulentos, podemos criar a nossa própria luz através de uma nova filantropia. O futuro do impacto não será movido apenas por capital financeiro, tecnológico ou político. Será movido pela confiança entre as pessoas que decidem trabalhar juntas.
E foi exatamente isso que tornou esta sessão tão relevante. Porque não falámos apenas da abordagem de apoio financeiro que já criámos. Falámos, com confiança, de como queremos construir o futuro.